Cronista dorense escreve sobre obra de Ricardo Costa - Dezembro/2012

A escritora dorense Maria das Dores Caetano Guimarães, ou simplesmente Maria, fez uma homenagem a Ricardo Costa em sua crônica “Batizado de uma Santa”.

BATIZADO DE UMA SANTA

Maria

Agora, Ela está lá, enfeitando minha sala, enfeitando meu coração. Agora, Ela está lá: sem nome, sem altar, esperando o momento certo para ganhar um título...

Passo por Ela, sorrio pra ela, dou uma paradinha respeitosa, faço uma ligeira reverência pra santinha nova.

Hoje, sem mais nem porquê, falei:

- Temos de descobrir um nome que dê certo pra santinha...

Até agora, ela era a Santa do Moço, marcando que ela foi um bonito presente do nosso amigo, Ricardo Costa, aquele que vem enfeitando Dores do Indaiá, com suas peças de Arte.

- Que santa é essa, Ricardo?

- Ah, é uma Nossa Senhora, D. Branca...

Ele me contou a história da santinha: qual o primeiro homem criado por Deus, do barro bento da terra nova, bafejada pelo sopro divino, a minha santa também saiu da terra, bafejada pelo talento de outro grande artista.

Como gosta de fazer, saiu caminhando por caminhos que ocultam sutilezas, lampejos de possíveis trabalhos artísticos: vê uma pedra lascada, encontra um galho torto, acha pedrinhas e sementes que vão delineando novas criações em seu espírito...

- Ah, Ricardo, se eu achar um galho torto, ele vai ficar torto pro resto da vida! Se eu achar uma pedrinha linda, o máximo de arte que terei é guardá-la em um vidrinho mimoso...

Ele ri, feliz!

Pois, foi andando por caminhos – mil vezes percorridos por olhares órfãos de sensibilidade artística – que ele descobriu a matéria bruta pra fazer a minha santinha...

O oratório, nicho para acolher o perfil delicado da santa sem nome, também foi tecido e lavrado com material colhido aqui e ali, pelos caminhos que o coração do artista sabe encontrar... As cores? Pegou-as de plantas das beiradas dos córregos, da terra colorida de mil gamas e que só ele enxerga...

Mas, a minha santinha, ah, ela é muito linda, toda feita em Verdete, rocha rica do minério valioso que está chamando a atenção de grandes empresas para nossa região.

Felizmente, antes que as máquinas e sondas furassem a terra, derrubassem as montanhas verdes... Antes que as grandes empresas cercassem tudo, colocassem placas e impedissem a manifestação da Arte...

Antes de tudo isso, aconteceu um momento quase divino, quando o artista tomou um pedaço de rocha verde e lhe imprimiu a marca de sua alma criadora...

Agora, minha Senhorinha está lá, verde, linda, trazendo em suas mãos, um punhado de nossa terra abençoada...

- Que santa é essa, D. Branca?

- Que Nossa Senhora é essa, D. Branca?

- Ah, ela ainda não tem nome: é a Virgem Maria que o Ricardo Costa fez pra mim...

Minha neta Clarissa olhou, olhou pro oratório e a santa ficou batizada:

- Vovó, tá bom de chamar Ela de Nossa Senhorinha Verde.

- É mesmo, ela é pequena, palpitou Fernanda...

- E ela é verdinha, acrescentou a Isabela

Meu coração ficou bento e reconheceu: uma santa verde como nossos quintais frescos e perfumados, uma santa verde como as folhas do meu jardim... Uma santa verde como os olhos do meu pai, de meus irmãos... Uma santa verde como a grama que enfeita nossas praças... Uma santa verde, do jeito que os brasileiros imaginam a esperança para a nossa terra abençoada... Uma esperança atávica que trazemos no coração...

- Pois então, minha santinha se chama SENHORINHA VERDE.

(Essa crônica é para o artista plástico dorense, Ricardo Costa).